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OS 7 PERCADOS CAPITAIS E O ARQUÉTIPO DA SOMBRA


“Ninguém se ilumina imaginando figuras de luz, mas se conscientizando da escuridão”. – Carl Jung –

Os pecados capitais segundo tradição católica, denominam-se dessa forma por originarem outros pecados. E ao contrário daquilo que certas denominações que se dizem cristãs afirmam, os pecados capitais possuem base bíblica e fazem parte do ensino moral cristão. São regras de libertação e não de aprisionamento do ser humano. A origem datada no século IV, são Gregório Magno e são João Cassiano definiram-nos como sete: orgulho, avareza, inveja, ira, luxúria, gula e preguiça. Até hoje na Igreja existe um consenso doutrinal sobre essa classificação. No cotidiano, o católico pode lembrar desses pecados no exame de consciência que faz ao preparar-se para o sacramento da confissão. Eles servem de fonte de identificação para o defeito dominante que determina os outros, chamado de pecado hegemônico. Tendo como base as Epístolas de São Paulo, definiu como sendo sete os principais vícios de conduta: gula, luxúria, avareza, ira, soberba, preguiça e inveja. A lista só se tornou “oficial” na Igreja Católica no século 13, com a Suma Teológica, documento publicado pelo teólogo são Tomás de Aquino. No documento, ele explica o que os tais sete pecados têm que os outros não têm. O termo “capital” deriva do latim caput, que significa cabeça, líder ou chefe, o que quer dizer que as sete infrações são as “líderes” de todas as outras.

Essa questão me faz lembrar do arquétipo da sombra, o lado escuro da nossa psique. No entendimento de Jung, fundador  da psicologia analítica, ele o chama de  o “lado sombrio” da nossa personalidade. É o submundo conturbado da nossa psique que contém os nossos sentimentos mais primitivos, os egoísmos mais afiados, os instintos mais reprimidos e aquele “eu escondido” que a mente consciente rejeita e que nos mergulha nos abismos mais profundos do nosso ser. No entanto, não podemos esquecer que a ideia que Jung nos trouxe através do seu trabalho sobre os arquétipos já estava presente em nossa sociedade histórica e culturalmente. O conceito de sombra ou o lado obscuro constitui essa dualidade comum, que inspirou Robert Louis Stevenson a criar o seu clássico “Dr. Jeckyll e Hyde”, muito antes de Jung desenvolver a sua teoria sobre o arquétipo da sombra. Essa pedagogia interessante de catequização é alimentada pelo medo. A igreja institucional desenvolveu muitos dogmas, tradições e costumes para assegurar o domínio da consciência das ignorantes em nome de Deus. No lado escuro da psique é que mora nossos monstros. Jung foi mais profundo do que ficar nessas definições paulinas sobre o pecado, a saber nosso lado errante e marginal. A ideia de sete pecados cai por terra quando deparamos com a escuridão intima de cada indivíduo, é evidente que tais definições eram percepções daquele tempo. É impossível prever o que está sendo gerado na consciência, apenas lemos em tese o que é manifestado, dito, realizado.  

Assim refletindo sobre este tempo. Estamos diante deste fenômeno, que tanto seduz, a vaidade das redes sociais. A socióloga Sherry Turckle do Instituto de Tecnologia de Massachusetts entende que “a vida virtual nos permite escondermos dos outros”. E que a “A tecnologia é sedutora quando o que oferece preenche nossas vulnerabilidades humanas”. Em suma as vulnerabilidades se referem às dificuldades internas vivenciadas ao longo da vida. Algumas desde o nascimento, outras são dificuldades emocionais que aparecem durante a vida e se desenvolvem conforme a pessoa absorve crenças irracionais ou passa por experiências ruins e desilusões. Esconder-se da realidade é um caminho perigoso, até porque a virtualidade é uma areia movediça. Não existem métodos seguros para se viver online 24 horas por dia. "A vida se vive pisando o chão da realidade".  No entanto buscar o equilíbrio do tempo nas redes sociais é essencial. No centro Integrado dos Transtornos do Impulso do Hospital das Clinicas, em São Paulo, a Psicóloga Dora Sampaio Góis que monitora o Programa de Dependência Tecnológica, atende pessoas diariamente que perderam o elo com os amigos e só conseguiam cultivar os virtuais. Ela diz uma coisa interessante: À internet não muda a índole de ninguém, o que vicia é a possibilidade de melhorar o conceito sobre si mesmo. Aí é o que aumenta a solidão. O verdadeiro mal está dentro e não fora. Todo mal materializado antes foi gerado no pensamento.

O narcisismo contemporâneo, ideia tirado do personagem da mitologia grega incapaz de amar outras pessoas e que morreu por se apaixonar pela própria imagem, que inspirou o termo narcisista. Este conceito foi depois reinterpretado por Freud, o primeiro que descreveu o narcisismo como uma patologia. Nos anos setenta, o sociólogo Christopher Lasch transformou a doença em norma cultural e determinou que a neurose e a histeria que caracterizavam as sociedades do início do século XX tinham dado lugar ao culto ao indivíduo e à busca fanática pelo sucesso pessoal e o dinheiro, é neste ponto que os profissionais do Coach tem potencializado essa neurose, um novo mal dominante em todos os níveis em nome da dita alta performance. Quase quatro décadas depois ganhou força a teoria de que a sociedade ocidental atual é ainda mais narcisa, afirma Cristina Galindo do Site El País.  Os traços narcisistas nem sempre são fáceis de reconhecer, e sendo moderados, não há por que serem um problema. No entanto são comportamentos egoístas, pouco empáticos, às vezes um tanto exibicionistas, de pessoas que querem ser o centro da atenção, ser reconhecidas socialmente, que costumam resistir a admitir seus erros ou mentiras e que se consideram extraordinárias (embora sua autoestima seja, na realidade, baixa). Um exemplo extremo, contado por Twenge, é o de uma adolescente que em um reality da MTV tenta justificar assim o bloqueio de uma rua para realizar sua festa de aniversário, sem se importar que haja um hospital no meio: “Meu aniversário é mais importante! ”.

Entender a sombra é encarar a realidade da nossa natureza, Jung desenvolveu o seu próprio método a partir não só da analise, mas da observação de campo, e isso faço diariamente. Ele deixou de lado o sofá e essa relação assimétrica entre terapeuta e paciente para desenvolver uma terapia baseada na conversa, investigar a estrutura da psique e o inconsciente onde os arquétipos navegam. A “sombra” foi um termo emprestado de Friedrich Nietzsche. Representava a personalidade oculta que cada pessoa possui, à primeira vista, a maioria de nós como seres bons e nobres, mas nosso interior há certas dimensões reprimidas, onde se escondem os instintos hereditários, a violência, a raiva, o ódio, alimentado pela construção vivencial, religiosa e social. Não vive somente dentro de cada pessoa. Às vezes, também está presente em “grupos de pessoas”, em seitas, em alguns tipos de religiões ou mesmo em partidos políticos. São organizações que podem, em um determinado momento, lançar a sua sombra à luz para justificar atos violentos contra a própria humanidade. O nosso crescimento pessoal e o nosso bem-estar psicológico dependerão sempre da nossa capacidade de iluminar essas sombras, e a coragem de se propor a mudar. Para mudanças é preciso estar atento as crenças que vão se construindo sutilmente no interior das profundezas de nossa alma.

Assim termino essa breve reflexão falando um pouco da individuação. Entendo que ela se desenvolve não indo para o isolamento, mas andando na multidão, no coletivo. É na interação, no permitir do encontro que ela se manifesta. A sombra é o eu que desejo esconder. Nesse processo temos a chance de decidir entre o falso e o verdadeiro, a individuação é, buscar o equilíbrio em meio a essa sociedade liquida como se referiu Balmam. Os ditos pecados capitais, dentre tantas definições é, a manifestação do inconsciente coletivo segundo Jung desde os tempos antigos. Hoje se manifesta pelas redes sociais de múltiplas formas, mas nem sempre é o que é, também nada do que deveria ser. O processo de individuação consiste em confrontar os vários aspectos sombrios, reconhecendo-os e despindo-se da persona e das imagens primordiais. Segundo Jung, o processo de individuação nada tem de individualismo, muito pelo contrário, é um processo que estimula o indivíduo criar condições para que cada um desperte o melhor de si e do outro, o tempo todo, fazendo-o sair do isolamento e empreender uma convivência mais ampla e coletiva, por estar mais próximo, conscientemente da totalidade, mas ainda mantendo sua individualidade.

Por fim, termino afirmando que, a análise como processo psicanalítico acontece a partir de um contrato pré-estabelecido entre paciente e analista, onde ambas as partem aceitam se implicar no processo psicanalítico, e a autoanálise nos remete ao processo de Investigação de si mesmo por si mesmo, conduzida de fora mais ou menos sistemática e que utiliza procedimentos do próprio método psicanalítico que consiste nas associações livres, análise dos próprios sonhos e interpretações de comportamentos e emoções. É de suma importância a compreensão de si mesmo para que assim, possamos compreender o outro. Através da análise do próprio eu, do conhecimento das próprias incapacidades, limitações, paixões e sofrimentos psíquicos, é sim possível, pela própria experiência, alimentar a capacidade de ajudar o outro. 

Fica minha pergunta, qual grupo você está? No grupo estão em processo de análise para melhor viverem? Daqueles quem acham que nada disso é preciso? No grupo daqueles que realizarão a análise e agora exercitam a autoanálise? E quanto aos ditos pecados capitais parafraseado na imagem acima, o que eles têm a ver com sua verdade e as implicações no dia a dia? E as sombras, você é tem domínio sobre elas? E quando elas se manifestam tudo que é desmorona? Pense e responda!     

Cezar Camargo
Psicanalise & Desenvolvimento Humano

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