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Burnout não é fraqueza: é o grito da alma por sentido


Como a Psicologia Junguiana e a Neurociência nos convidam a transformar o esgotamento em caminho de cura e autenticidade.

A Síndrome de Burnout foi classificada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como doença ocupacional, em janeiro de 2022. Ela pode ser provocada pelo excesso de responsabilidades e competitividade dentro do contexto profissional. Pode gerar estresse, cansaço físico e mental, além de sentimento de frustração, culpa e irritabilidade. Segundo a entidade, há um considerável aumento de diagnósticos de depressão ou ansiedade no Brasil. 

Afastamentos de trabalho por burnout aumentaram em quase 1000% em uma década, considerando o número anual de diagnósticos pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) para concessão de auxílio doença.

A Síndrome de Burnout é um transtorno cada vez mais comum. Alguns de seus indícios se caracterizam por um estresse devastador, extremo, superior à capacidade pessoal do indivíduo de lidar com questões do dia a dia de modo eficiente. A doença está relacionada exclusivamente ao trabalho e, segundo registros, há cerca de 11,5 milhões de pessoas afetadas no país, maior número da América Latina.

“A situação é bem grave em nosso País e as próprias lideranças já se atentam a este problema, conforme pudemos constatar nesta pesquisa”, afirma Erica Maia, médica psiquiatra e gerente de saúde mental da Conexa. “Investir em programas de saúde mental não deve ser visto apenas como um benefício para a empresa; é uma estratégia de negócios para que haja um ambiente colaborativo, saudável, com mais produtividade e retorno financeiro para as corporações”, emenda Erica.

Mas, o que é o Janeiro Branco? É uma campanha dedicada a convidar as pessoas a pensarem sobre o sentido e o propósito de suas vidas, a qualidade dos seus relacionamentos e sobre o quanto elas conhecem sobre si mesmas, suas emoções, seus pensamentos e comportamentos. Isso se chama Psicoeducação, e o Janeiro Branco nasceu para essa causa, que envolve amor à humanidade, senso de responsabilidade social e de dever profissional e pura solidariedade humanística.

Burnout, Individuação e o Chamado do Inconsciente: uma ponte entre Jung e a Neurociência

A Síndrome de Burnout, embora classificada como uma doença ocupacional, revela-se, sob a lente da Psicologia Complexa (também conhecida como Psicologia Junguiana), como um sintoma simbólico — um sinal de que algo essencial está sendo negligenciado na vida do indivíduo. 

O psiquiatra Carl Gustav Jung compreendia o sofrimento psíquico não apenas como um distúrbio a ser eliminado, mas como um convite do inconsciente para que a pessoa se volte para si mesma, em busca de sentido, equilíbrio e autenticidade. 

Esse processo é o que Jung chamou de individuação: o caminho de tornar-se quem verdadeiramente se é, integrando as partes conscientes e inconscientes da psique.

Nesse contexto, o burnout pode ser interpretado como um colapso simbólico provocado pela desconexão entre o eu social (a persona) e o Self — o núcleo arquetípico da totalidade psíquica. Quando alguém vive exclusivamente para atender às exigências externas — produtividade, reconhecimento, competitividade — sem nutrir sua dimensão interna, o inconsciente responde com exaustão, irritabilidade, desesperança e até sintomas físicos. É como se a alma estivesse gritando por atenção.

Essa visão encontra sólido respaldo na neurociência afetiva contemporânea. Estudos demonstram que o estresse crônico — como o vivido no burnout — altera estruturas cerebrais fundamentais, como o córtex pré-frontal (responsável pela tomada de decisão, autorregulação e empatia) e o hipocampo (associado à memória e regulação emocional). 

Ao mesmo tempo, há hiperatividade na amígdala, centro do medo e da resposta de ameaça. Essas mudanças não apenas comprometem o desempenho cognitivo, mas também dificultam o acesso à introspecção e à autorreflexão, justamente as capacidades necessárias para iniciar o processo de individuação.

Contudo, a neuroplasticidade — a capacidade do cérebro de se reorganizar — oferece esperança. Práticas como psicoterapia junguiana, trabalho com sonhos, imaginação ativa e expressão simbólica (arte, escrita, movimento) não apenas restauram o equilíbrio emocional, mas também promovem mudanças neurais mensuráveis. Elas fortalecem redes neurais associadas à consciência de si, à regulação emocional e à resiliência — ou seja, transformam o cérebro enquanto transformam a alma.

O Janeiro Branco, portanto, vai além de uma campanha de conscientização: é um ritual coletivo de retorno ao centro. Convida cada pessoa a perguntar: “Estou vivendo minha vida ou a vida que esperam de mim?”. Essa pergunta, aparentemente simples, é o primeiro passo rumo à individuação — e à prevenção de colapsos como o burnout.

Investir em saúde mental, nas organizações ou na vida pessoal, não é apenas uma estratégia de produtividade. É um ato de humanização. É permitir que o indivíduo não apenas sobreviva, mas floresça — integrando razão e emoção, trabalho e propósito, ego e Self. E nesse florescimento, reside a verdadeira sustentabilidade humana.

Um lembrete importante é: há sofrimentos que podem ser prevenidos, dores que podem ser evitadas, violências que podem ser impedidas, cuidadas ou reparadas. Um dos propósitos é fazer do mês de janeiro o marco temporal estratégico para que todas as pessoas e instituições sociais do mundo reflitam. Para corroborar a campanha, um dado importante: quase 90% das empresas do Brasil registraram funcionários afastados por doenças mentais neste ano, revela pesquisa/estudo da Conexa, feito com gestores e áreas de Recursos Humanos (RHs) de mais de 700 empresas. 

Esse fato expõe o quanto o brasileiro está doente; a ansiedade é o transtorno que mais causa afastamento. Como você e sua empresa — ou lugar onde você trabalha — tem lidado com essa questão?

Falando em transtornos de ansiedade, cabe destacar a síndrome do pânico, que já atinge mais de seis milhões de pessoas só no Brasil. É caracterizada por sentimentos de medo e ansiedade extremos, acompanhados de taquicardia, mal-estar e outros problemas físicos, que aparecem sem um motivo aparente. Em razão de ter sinais e sintomas parecidos com os de outras doenças, muitas vezes o transtorno do pânico só é diagnosticado após o paciente passar por consultas com diferentes especialistas e realizar vários exames.

O transtorno do pânico tem como causa o desequilíbrio químico dos neurotransmissores serotonina e noradrenalina, respectivamente, substâncias do cérebro que influenciam no humor e na excitação física. O distúrbio pode ser desencadeado por situações estressantes, traumas psicológicos, entre outros fatores, e também está relacionado às características da personalidade. 

Não há uma causa específica para a síndrome do pânico, mas há indícios de que fatores genéticos exercem influência nisso. Cerca de 35% das pessoas que têm parentes de primeiro grau com síndrome do pânico desenvolvem a doença também. 70% dos casos começam a se manifestar entre 20 e 35 anos e 71% dos pacientes são mulheres.

Obviamente não podemos deixar de falar sobre estresse ocupacional, em se tratando de prevenção. Estresse ocupacional é uma doença crônica caracterizada por reações de desgaste físico e psicológico relacionadas ao trabalho. A patologia surge como um padrão de respostas intensas diante de agentes estressores que, aos poucos, vão diminuindo a energia e a motivação do colaborador.

Segundo explica o estudo da Associação Nacional de Medicina do Trabalho “Estresse ocupacional: causas e consequências”, a doença é caracterizada por três fases distintas: alarme, resistência e exaustão. 
  • Na primeira, o organismo ativa uma resposta aguda ao que percebe como ameaça, a exemplo de um prazo curto para entrega de um projeto importante. 
  • Na segunda fase, as frequências cardíaca e respiratória ficam mais rápidas, a fim de sustentar uma reação de luta ou fuga para solucionar a situação. Essa etapa exige grande esforço do corpo e da mente e dura breves momentos antes de passar para a resistência. 
  • Na terceira fase, o organismo tenta recuperar o equilíbrio interno e retornar à condição anterior à percepção da ameaça. Nesse ponto, o indivíduo pode estar inserido num quadro sério depressivo ou, na melhor das hipóteses, estar sob muita pressão.
Outra questão importante: DEPRESSÃO, neste Janeiro Branco. Você já foi diagnosticado com depressão? Segundo publicado no livro do Doutor em Psicologia, pela Universidade de Coimbra, o português Carlos Lopes Pires, “depressão não é uma doença”, e sim “um distúrbio emocional, uma desordem”. Com base nessa afirmação, pergunto: você identifica em si alguma desordem? Um transtorno emocional é uma modificação da saúde mental de uma pessoa, que deixa o seu bem-estar em baixa. Os fatores são diversos; identificar a causa é o primeiro passo.

Essas alterações afetam o funcionamento da mente do indivíduo, modificando o humor, o raciocínio, os comportamentos, as atitudes, bem como o desempenho na vida pessoal e profissional. Você consegue identificar se há algo que tem alterado sua mente? Perceber e identificar as alterações lhe permitirá cada vez mais o desenvolvimento de habilidades, para o melhor gerenciamento de suas emoções. 

De acordo com a OMS, 5,8% da população brasileira sofre de depressão, o que corresponde a mais de 11 milhões de pessoas. Esse número coloca o Brasil como o país com a maior incidência de depressão na América Latina, atrás apenas dos Estados Unidos.

De acordo com a Pesquisa Vigitel 2021, 11,3% dos brasileiros relataram ter recebido um diagnóstico médico de depressão. Segundo uma pesquisa da Think Olga, 7 em cada 10 diagnósticos de depressão e ansiedade eram de mulheres. Estamos num ponto crítico, de fato. 

Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) estima-se que há mais de 300 milhões de pessoas no mundo que sofrem de depressão. Um estudo epidemiológico mais recente do Ministério da Saúde revela que nos próximos anos até 15,5% da população brasileira pode sofrer depressão ao menos uma vez ao longo da vida.

Nesta perspectiva, cuidar da saúde mental é, acima de tudo, amor-próprio; e o primeiro passo é entender seus sentimentos e emoções, praticar o autoconhecimento de forma incisiva/intensa. Nesse processo, mantenha a atenção no que você está sentindo e nos pensamentos. Automaticamente, isso lhe dará condições de não só considerar teus sentimentos, como discernir a origem deles.

Não haverá sustentação se sua estrutura emocional não estiver alicerçada. Entender suas emoções lhe permitirá andar com segurança e equilíbrio diante dos desafios diários. É na prevenção que está a nossa melhor chance de revertermos esses números, além de ser o melhor caminho para não sermos surpreendidos por tais doenças. 

Se desprezarmos as perturbações da nossa mente, as inquietações, nosso corpo somatizará tudo isso e as doenças aparecerão. Antes de qualquer ideia ou comentário sem fundamento, conheça-se, analise-se, permita-se, cuide-se.

Nesse âmbito, destaco 7 razões/benefícios para considerar-se a psicoterapia, a qual possui a finalidade de auxiliar no autoconhecimento e na prevenção ao burnout e ao suicídio:

1. Obter escuta livre de julgamentos;

2. Livrar-se de dependências;

3. Construir relações saudáveis;

4. Ter um espaço de autoconhecimento;

5. Melhorar relacionamentos;

6. Superar medos e dificuldades; e

7. Aprender a lidar com sentimentos e emoções.

Por fim, considere com responsabilidade essas observações, procure entender urgentemente suas necessidades e carências, para que seu caminho seja cada vez mais leve. Se precisar, não hesite: busque ajuda profissional, qualificada e experiente.

Psic. Cezar Camargo - Consultor Estratégico em Potencial Humano, Bacharel em Filosofia & Pesquisador da Psicologia Complexa (Junguiana) com mais de 25 anos de experiência.

Bibliografia Recomendada para Aprofundamento:
1- JUNG, C. G. Tipos Psicológicos. Petrópolis: Vozes, 2019.
→ Fundamental para entender como diferentes atitudes conscientes e inconscientes influenciam o modo como lidamos com exigências externas (como no ambiente de trabalho).
2- HILLMAN, James. A Alma no Trabalho. São Paulo: Cultrix, 2014.
→ Uma leitura junguiana contemporânea sobre o sofrimento no trabalho, a perda de sentido e a “doença da alma” na cultura moderna.
3- MASLACH, Christina; LEITER, Michael P. The Truth About Burnout: How Organizations Cause Personal Stress and What to Do About It. Jossey-Bass, 1997.
→ Obra seminal sobre o burnout, escrita por uma das criadoras da escala mais usada no diagnóstico (MBI – Maslach Burnout Inventory).
4- DAMÁSIO, António. O Erro de Descartes: Emoção, Razão e o Cérebro Humano. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

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