O Palco do Conflito
A cena é dolorosamente comum nos consultórios de psicologia. De um lado, há o parceiro que cobra, grita, chora e demanda – chamaremos de "O Perseguidor". Do outro, há o parceiro que se cala, se retrai, olha para o nada e, quando questionado, profere a frase que mais enfurece o outro: "Minha mente está vazia. Não consigo pensar em nada."
Para quem ouve, esse "branco" soa como indiferença, frieza ou fuga. Para quem sente, é um abismo aterrorizante.
Mas o que realmente acontece quando o amor vira guerra e a mente apaga? Para responder a isso, precisamos ir além do senso comum. Precisamos olhar através das lentes da Neuropsicologia, da Psicanálise Clínica e da Psicologia Complexa. O que descobrimos não é falta de amor, mas um complexo mecanismo de defesa, trauma e biologia operando em simultâneo.
1. A Visão Neuropsicológica: O Sequestro da Razão
Quando um casal entra em uma discussão acalorada, a primeira vítima é a lógica. A neurociência nos explica que a sensação de "mente vazia" não é uma metáfora; é um evento fisiológico mensurável conhecido como Inibição Cortical.
O Cérebro em Modo de Sobrevivência
Durante o conflito, a amígdala (o centro de detecção de ameaças do cérebro) sequestra o sistema nervoso. Ela percebe o tom de voz elevado ou a expressão facial de raiva do parceiro como um perigo de vida, similar a encontrar um predador na selva. Isso desencadeia o eixo HPA (Hipotálamo-Pituitária-Adrenal), inundando o corpo de cortisol e adrenalina.
Se a pessoa percebe que não pode lutar (vencer a discussão) nem fugir (sair da sala), o sistema nervoso autônomo aciona sua defesa mais primitiva: o Congelamento (Freeze) ou colapso dorsal-vagal, conforme descrito na Teoria Polivagal de Stephen Porges.
Por que a mente fica vazia?
Nesse estado, o fluxo sanguíneo é desviado do Córtex Pré-Frontal (responsável pelo planejamento, fala articulada e regulação emocional) para os músculos e órgãos vitais. O indivíduo literalmente perde o acesso ao seu vocabulário e capacidade de raciocínio. O "branco" é, portanto, uma dissociação biológica. O corpo está presente, mas a "pessoa" (o Eu consciente) foi desligada para economizar energia e anestesiar a dor do ataque emocional.
2. A Visão Psicanalítica: A Demanda e o Recalque
Enquanto a neurociência explica o hardware, a psicanálise ilumina o software inconsciente. Sigmund Freud e Jacques Lacan nos ajudam a entender que o conflito conjugal raramente é sobre a "toalha molhada" ou o "atraso"; é sobre a angústia de aniquilação.
A Compulsão à Repetição
O casal frequentemente está preso no que Freud chamou de Wiederholungszwang (compulsão à repetição). Eles não estão apenas brigando no presente; estão reencenando traumas infantis não resolvidos.
• A Posição Histérica (O que cobra): Aquele que grita está, muitas vezes, revivendo a angústia do abandono. Sua fala incessante é uma Demanda de Amor mal endereçada. Ele não quer apenas uma resposta lógica; quer que o outro preencha sua falta existencial.
• A Posição Obsessiva (O que cala): Aquele que se isola sente a demanda do outro como uma invasão psíquica. Seu silêncio é uma barricada para evitar a desintegração do seu Eu.
O Vazio como Sintoma
Na clínica psicanalítica, o "vazio" relatado pelo paciente pode ser entendido como um Recalque Maciço. A angústia gerada pela discussão é tão intolerável que a psique "ejeta" a representação mental. A pessoa não tem palavras porque o afeto (a dor) foi desligado da representação (a ideia). É um mecanismo de defesa contra o colapso subjetivo: melhor não sentir nada do que sentir a dor de não ser amado.
3. A Visão Junguiana (Psicologia Analítica): A Possessão dos Complexos
Carl Gustav Jung nos levaria a olhar para a dimensão simbólica e arquetípica desse "apagão". Para a Psicologia Analítica, quando a emoção sobe demais, ocorre um abaissement du niveau mental (rebaixamento do nível mental). A consciência perde o controle e os Complexos Autônomos assumem a direção.
Os Complexos Autônomos (ou Complexos de Tonalidade Afetiva) são o conceito central para entender por que reagimos de forma desproporcional em certas situações.
De forma simples: Eles são "mini-personalidades" que vivem dentro de nós.
Definição Fundamental
Imagine que a sua psique é uma casa e o Ego (a sua consciência, quem você diz ser "Eu") é o dono da casa. Os Complexos são visitas indesejadas que, às vezes, trancam o dono no quarto, tomam conta da sala, dão festas barulhentas, quebram móveis e, quando vão embora, o dono volta e diz: "Meu Deus, eu não sei o que deu em mim".
Jung dizia uma frase célebre:
"Todos nós sabemos que temos complexos. O que não sabemos é que os complexos é que nos têm."
A Guerra entre Anima e Animus
Em muitos conflitos heteroafetivos (embora se aplique a outras configurações), vemos uma polarização clássica:
• Um parceiro é possuído pelo Animus Negativo (o princípio masculino dentro da psique, focado na lei, no julgamento e na crítica severa). Ele ataca com "opiniões" que ferem como espadas.
• O outro é possuído pela Anima Negativa (o princípio feminino interno, focado no humor, no ressentimento e na passividade). Ele se retira para um mundo de fantasias ou "nada", recusando a conexão.
A Nigredo Relacional
O estado de "mente vazia" pode ser comparado à fase alquímica da Nigredo (a escuridão, a putrefação). É o momento em que o Ego percebe sua impotência. Embora doloroso, Jung via isso como necessário. É no "vazio" que a velha forma de se relacionar morre.
O problema é que a maioria dos casais fica presa na Nigredo, repetindo o ciclo de morte sem nunca alcançar a Albedo (clareza/renascimento). Eles projetam sua Sombra no outro: "Você é o louco/frio", recusando-se a ver que a frieza e a loucura pertencem a ambos.
Conclusão: Do Diagnóstico à Cura
Entender que o "branco" do seu parceiro é um colapso neurobiológico (e não desamor), e que a "cobrança" da sua parceira é pânico de abandono (e não chatice), muda tudo.
A integração dessas três abordagens aponta para um caminho único de tratamento: Regulação antes da Resolução. Não adianta tentar dialogar (função do córtex pré-frontal) quando se está sob o domínio de complexos (Jung), atuando traumas (Psicanálise) e com o sistema nervoso em alerta (Neurobiologia).
A intervenção precisa ser somática – acalmar o corpo, sair do vazio – para só então convidar a alma de volta para a conversa.
O amor maduro não é a ausência de conflito, mas a capacidade de visitar o inferno dos nossos próprios demônios e voltar de lá de mãos dadas com o outro.
Psic. Cezar Camargo - Consultor Estratégico em Potencial Humano, Bacharel em Filosofia & Pesquisador da Psicologia Complexa (Junguiana) com mais de 25 anos de experiência.
Referências Bibliográficas
1. Freud, S. (1920). Além do Princípio do Prazer. Obras Completas, vol. 18.
2. Jung, C. G. (2013). A Psicologia da Transferência. Editora Vozes. (Obras Completas Vol. 16/2).
3. Jung, C. G. (2011). Aion: Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Editora Vozes. (Obras Completas Vol. 9/2).
4. Lacan, J. (2005). O Seminário, livro 10: A angústia. Jorge Zahar Editor.
5. Levine, P. A. (2012). Uma voz sem palavras: Como o corpo libera o trauma e restaura o bem-estar. Summus Editorial.
6. Porges, S. W. (2011). The Polyvagal Theory: Neurophysiological Foundations of Emotions, Attachment, Communication, and Self-regulation. W. W. Norton & Company.
7. Van der Kolk, B. (2020). O Corpo Guarda as Marcas: Cérebro, mente e corpo na cura do trauma. Editora Sextante.
8. Winnicott, D. W. (1975). O Brincar e a Realidade. Imago Editora.

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